Poesia

Os dois poemas abaixo integram uma série de sonetos intitulada No Ventre do Verão. Foram publicados ‘oficialmente’ em Plástico Bolha (Ano 2, n. 16). O primeiro deles foi publicado posteriormente na Antologia de Poesia do jornal.

No ventre do verão

No ventre do verão sem calma ou vento,
não tive a quem gritar. O sol queimante,
o suor, a febre, o espasmo delirante
secava em todo peito todo intento.
Era dezembro, o mês do fingimento.
As ruas, eu cruzava em pranto andante,
espremido entre a massa e o cru cimento,
sem ninguém que me ouvisse o grito arfante.
Em meio à gente tanta, solitário,
no ventre do verão incinerário
queimava os pés no solo e a pele no ar.
E em todos os rostos um sorriso,
tão belo, tão bonito e tão preciso
com prazo até Janeiro pra pagar.

(In: http://www.jornalplasticobolha.com.br/pb16/texto12b.htm)


UERJ

O ano todo enfurnado nestas salas,
dissolvido no lodo comunal,
ouvindo toda sorte de cavalas
relinchando em discurso doutoral!
O ano todo enfurnado nestas valas,
eu massa amorfa em baço lodaçal,
ouvindo à força de novela e balas
chafurdo na burrice universal!
Entre sons sempre os mesmos como ser
alguém que vive, sente, quer e toca,
enveredando em rumo do saber,
se o que confere o ganho é ser boboca?
Mais vale então o soco que desmonta
que este lugar comum, que não afronta.

(In: http://www.jornalplasticobolha.com.br/pb16/texto12a.htm)

A peça abaixo integra a mesma série de sonetos, na qual tento mesclar uma dicção solene com expressões e temáticas do nosso tempo. Foi publicado em um outro número de  Plástico Bolha (Ano 3, n.26).

[Sentado à beira mágoa os montes vejo]

Sentado à beira mágoa os montes vejo,
órgãos afiados que projetam cumes
e em cujos escarpados, feros gumes
encontro a mesma corda que ora arpejo.
Facas, espadas, dardos que dardejo
contra o céu que se fecha em mil negrumes
não bastam pra calar os pesadumes
que o coração me cortam, e assim doidejo.
As armas contra a dor de nada ajudam,
a cada golpe rudes se desnudam
diversos braços novos que não venço.
E só me restam lágrimas salgadas:
com sentimento tanto assim choradas
me lavam ao menos o meu rosto tenso.

(In: http://www.jornalplasticobolha.com.br/pb26/texto11.htm)

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