2.04.12

Vernant e a pedagogia da amizade

Toda relação entre indivíduos se orienta a partir de certos valores e princípios. Ainda que, ao longo dos séculos, a relação entre professor e aluno tenha sido problematizada a partir de diferentes princípios e valores, sempre estiveram presentes de forma muito clara as noções de autoridade e de hierarquia, tomadas como os princípios mais eficazes para a realização da própria finalidade da relação pedagógica, a saber, a formação. Jean Pierre Vernant, em Tecer a Amizade, relata que, em sua atuação como professor em sala de aula, procurou se apoiar antes de tudo na própria philia, ou seja, na amizade:

Amigos da 2005, que souberam compreender o sentido de 'philia'

“É preciso começar por deixar de ser professor para deixar de sê-lo. Isso significa, obrigatoriamente (…), que toda relação social social, tanto com uma turma quanto com o grupo no qual nos engajamos na Resistência, implica um cimento, que é a amizade. Esse elemento fundamental é o sentimento de uma cumplicidade, de uma comunidade essencial sobre as coisas mais importantes. Na relação do professor com seus alunos, é o fato de compartilhar uma certa imagem do que deve ser uma pessoa, de ter em comum uma forma de sensibilidade e de abertura para o outro, de concordar com a ideia de que ser outro significa também ser semelhante. Para mim, o tipo de relações que eu queria instituir em minha sala de aula devia ser idêntico àquele que eu conhecia de outras experiências (…) Experiência de uma proximidade estranha, de uma proximidade com pessoas que são diferentes de nós e que de repente ficam próximas.”  (VERNANT, J. P. “Tecer a Amizade”. In: Entre Mito e Política. São Paulo: USP, 2009, p. 31.32)

Apesar de belo, isto não resulta por si só em uma harmonia constante entre as partes ou em qualquer tipo de entendimento incondicional entre os envolvidos. Ao colocar as coisas deste modo, neste plano no qual se estimula a isonomia, os conflitos se tornam mais aparentes e, com eles, maiores possibilidades de desvios da finalidade desejada. No entanto, a superação destes conflitos e desvios se dará não pelo uso irrestrito da prerrogativa professoral autoritária (da qual obviamente não se pode prescindir todo o tempo), mas da mesma maneira como os gregos tentaram superar os problemas decorrentes da sua auto-organização em cidades estados independentes, ou seja, por meio do desenvolvimento de modelos dialogados, compartilhados e decisionais de gestão e entendimento.

14.02.12

Aluno da ETE JOAO LUIZ DO NASCIMENTO (FAETEC) vence etapa regional do Premio Igualdade de Gêneros

O aluno ARTHUR FERREIRA FIGUEIRA foi o vencedor carioca do 7º Prêmio Igualdade de Gênero, promovido pelo CNPq, na categoria “estudantes do Ensino Médio”. Sob a orientação do prof. Rafael Huguenin, o aluno concluínte da ETE João Luis do Nascimento, em Nova Iguaçu, venceu mais de 3300 inscritos na mesma categoria com sua redação Menino usa azul, menina usa rosa.

O Prêmio tem como objetivos estimular e fortalecer a reflexão critica e a pesquisa acerca das desigualdades existentes entre homens e mulheres em nosso país, contemplando suas intercessões com as abordagens de classe social, geração, raça, etnia e sexualidade no campo dos estudos das relações de gênero, mulheres e feminismos; e sensibilizar a sociedade para tais questões.

Mais informações:

http://www.faetec.rj.gov.br/dde/index.php/206-cnpq-etejln

http://www.cnpq.br/saladeimprensa/noticias/2011/1215a.htm

28.12.11

Subsídios para a compreensão da desigualdade de gêneros

A Revista Estudos Hum(e)anos (ISSN 2177-1006) publicou, em seu número 3, um ensaio de minha autoria que aborda da questão de gêneros. A reflexão é fruto do tratamento  do tema junto a alunos do Ensino Médio.

"O Rapto de Perséfone" - Luca Giordano (1684-1686)

RESUMO: Apesar de ganharem cada vez mais espaço no mercado de trabalho e na política, chegando inclusive à Presidência da República, as mulheres do Brasil ainda são vítimas de certas desigualdades sociais, econômicas e culturais. A grande incidência de casos de violência contra mulheres comprova esta desigualdade. No entanto, apesar das campanhas de conscientização, do trabalho de educação realizado pelas escolas e da criação de leis mais rígidas e específicas, a situação parece não mudar. Ora, se estas medidas não são suficientes, por si sós, para resolver o problema, então há causas mais profundas em jogo, causas estas que só podem ser esclarecidas por meio de um tipo específico de investigação, o único tipo de investigação capaz de abordar o problema em sua máxima abrangência e profundidade, a saber, a investigação filosófica.

HUGUENIN, Rafael. Subsídios para a compreensão da desigualdade social e cultural entre homens e mulheres. In: Revista Estudos Hum(e)anos, n. 3 , 2011. Disponível em: http://revista.estudoshumeanos.com/subsidios-para-a-compreensao-da-desigualdade-social-e-cultural-entre-homens-e-mulheres1-por-rafael-huguenin/

2.12.11

Governo do Estado quer Olimpíada mas não quer Filosofia

"A morte de Sócrates" - David (1787)

A Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro reduziu, sem nenhuma consulta aos professores e alunos, a carga horária das disciplinas Filosofia e Sociologia. Antes, os alunos tinham 2 tempos de 50 minutos por semana no terceiro e no segundo ano do Ensino Médio e 1 tempo no primeiro ano. De agora em diante, o segundo ano passará a ter apenas um tempo por semana.

Com isso, os alunos serão prejudicados, pois terão menos tempo de aula justamente nas disciplinas destinadas a aprimorar o senso crítico, a capacidade de argumentação e a própria cidadania.

Tenhamos em mente que, na época da ditadura, sob o lema de “formar alunos com o máximo possível de conhecimentos técnicos-especializados e o mínimo possível de conhecimento geral e capacidade crítica”, os militares esvaziaram do currículo justamente a importância da Filosofia e a Sociologia na reforma da LDB de 1971.

Os professores também serão prejudicados. Como é prática comum da SEEDUC formar turmas com uma média de 45 ou mais alunos, os professores passarão a ter um trabalho muito maior de correção, preparação e demais atividades pedagógicas, além de ser quase impossível dar uma atenção diferenciada a alunos com problemas específicos.

É  curioso que o Governo do Estado queira Olimpíada mas não Filosofia. Com isso, não se leva em conta o espírito clássico de onde surgiu a própria Olimpíada, espírito que prezava antes de tudo “mente sã em corpo são”. O que os antigos gregos diriam ao saber que, ao mesmo tempo em que promove uma Olimpíada, o Estado do Rio diminui a Filosofia? A excelência atlética substitui a excelência do pensamento?

Passeata na década de 1960

Além disso, ao não consultar os alunos, professores e pais a esse respeito,  não se atendendeu também a um outro preceito também inventado pelos gregos, chamado “democracia”. Todos foram informados simplesmente pelo Diário Oficial, sem nenhuma discussão prévia ou mesmo justificação.

Como ser campeão em Esporte (ou em qualquer outra coisa) sem cultivar, além do corpo e das habilidades atléticas, também a mente e a capacidade de análise e raciocínio crítico, habilidades desenvolvidas principalmente pela Filosofia?

Quem ganha com essa medida?

Aliás, alguém ainda se importa com isso?

1.12.11

Depoimentos de alunos do Ensino Médio sobre Filosofia

Enquanto algumas escolas e redes públicas de educação consideram a Filosofia dispensável, reduzindo a carga horária desta disciplina, os alunos parecem pensar de modo diferente.

Os depoimentos abaixo foram retirados das respostas dos meus alunos do primeiro ano para uma pequena questão proposta na prova do quarto bimestre do ano letivo de 2011. Com exeção de algumas correções ortográficas e sintáticas, nada foi alterado:

DEPOIMENTOS DE ALUNOS DA PRIMEIRA SÉRIE  DO ENSINO MÉDIO SOBRE FILOSOFIA

As respostas acima falam por si próprias. Os próprios alunos identificam o que poderia estar  por trás da diminuição da carga horária de uma disciplina ainda em processo de consolidação, após anos de exílio.

22.10.11

Texto sobre a Poética no Breviário de Filosofia Pública

A publicação, assim como a aula, é sempre um acontecimento estimulante na rotina do professor e pesquisador. A própria etimologia é auspiciosa e nos transporta à origens da filosofia. Afinal, “publicar” pode ser entendido simplesmente como “trazer à público”. E o que caracterizava o ambiente no qual surgiu a filosofia era justamente a atitude de levar todas as discussões relevantes à praça pública, ao centro ou, como diriam os gregos,  εἰς τὸ μέσον.  Agora chegou a vez de levar a um circulação mais ampla este texto que alguns alunos já conheciam. O texto tem como principal finalidade relacionar o texto de Aristóteles com o horizonte cultural do qual ele emerge, sobretudo no que diz respeito a certas características culturais que nem sempre são levadas em conta:

HUGUENIN, Rafael. Para ler a Poética de Aristóteles. In: Breviário de Filosofia Pública (ISSN: 2236-420X), número 32, 10/11. Disponível em:  http://estudoshumeanos.com/2011/10/03/para-ler-a-poetica-de-aristoteles/

23.09.11

Praça dos Combatentes

A melhor maneira de homenagear os nossos antepassados que combateram o fascismo na Itália é combater as suas versões modernas. Neste sentido, os jovens da foto acima certamente dariam orgulho aos soldados brasileiros que, mortos em combate, descansam hoje em Pistóia, contemplando de seus túmulos um céu no qual não brilha o Cruzeiro do Sul. A foto acima registra, em plena Praça dos Ex-combatentes, em São Gonçalo, o protesto pacífico destes bravos alunos do colégio Walter Orlandine por uma educação pública de qualidade.

Quisera eu ser um Homero para cantar em versos épicos o nome de cada um destes jovens…

23.09.11

“Clemente” e a luta popular das favelas

Em um momento em que as lutas populares se multiplicam em todo o mundo, o portal da Rede Democrática e o portal da Agência de Notícias das Favelas publicaram um texto de minha autoria no qual faço uma homenagem a alguns brasileiros que tinham como lema “ousar lutar, ousar vencer”:

http://www.rededemocratica.org/index.php?option=com_k2&view=item&id=321:%E2%80%9Cclemente%E2%80%9D-e-a-luta-popular-das-favelas

http://www.anf.org.br/2011/08/clemente-e-a-luta-popular-das-favelas/

A explicação para o caráter “pouco aguerrido” do povo brasileiro em matéria de participação política talvez seja encontrada, entre outras coisas, nas personalidades históricas que integram o imaginário da população, sobretudo dos jovens. Afinal, quais são as personalidades que deram exemplo reais de luta e compromisso com seu povo? De que causas morreram os nossos verdadeiros heróis?

12.07.11

Lançamento do NEAM (Núcleo de Estudos e Apoio à Mulher) no Instituto Federal Fluminense

Com o objetivo de consolidar a atuação do Instituto Federal Fluminense no campo dos Direitos Humanos, foi lançado no último dia 3 de Julho, em Campos dos Goytacazes, o Núcleo de Estudos e Apoio à Mulher. A proposta, mais do que louvável, consiste em reunir pesquisadores, representantes de movimentos sociais, alunos e toda a comunidade do Norte Fluminense em torno deste importante tema que é a diferença de gêneros.

Em nossa sociedade, como sabemos, esta questão assume o caráter de um problema grave, pois a diferença de gênero é vista antes de tudo como uma diferença de estatuto social. Esta diferença de estatuto se revela, de modo inequívoco, nos mais diversos casos de violência contra a mulher. Enquanto persistir esta violência em nossa sociedade, todos os avanços conquistados pelas mulheres nos últimos anos, na política e na cultura, acabam se relativizando.

Convite para o lançamento do Neam

Neste sentido, o mais louvável na proposta do NEAM é a compreensão de que não se trata de um problema apenas das mulheres ou dos estudiosos da questão de gêneros, mas de toda a sociedade. Levando isto em conta, apresentei uma palestra na qual, a partir de uma perspectiva Filosófica e apoiado em minha experiência no trato deste tema em sala de aula, procurei investigar as raízes profundas para as desigualdades sociais entre homens e mulheres:

Subsídios para a Compreensão das Diferenças Sociais e Culturais entre Homens e Mulheres (Texto em PDF)

O texto, que dediquei à minha esposa Renata Gerk,  se divide em três partes: 1) Colocação do problema: quais as causas para a diferença de gênero ser vista como uma diferença de estatuto social? 2) Análise da causa hipotética por meio do exame dos mitos gregos, em especial o mito de Démeter e Perséfone, tomados como expressões simbólicas de camadas profundas da mente; 3) Exame das relações entre os mitos examinados com um contexto histórico determinado. Sugestões, comentários ou críticas a este texto ousobre a diferença de gêneros em geral serão bem vindos.

O evento foi destacado e reconhecido pelo SETEC/MEC:

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=16836:instituto-federal-fluminense-lanca-nucleo-de-apoio-a-mulher&catid=209&Itemid=86

Vida longa ao Neam! Viva a luta das mulheres trabalhadoras!

4.05.11

O Fundamento Político da Atividade Filosófica

Alunos da 105, 102 e 101 do IFF.

Desvincular a atividade filosófica de práticas políticas é um dos maiores erros que pode cometer quem se aventura a lecionar filosofia no Ensino Médio. Por práticas políticas entendemos aqui simplesmente um contexto coletivo no qual, por meio do debate contraditório, da discussão e da argumentação, os problemas e suas soluções são submetidas à decisão da maioria, que, de braços erguidos, escolhe entre os diversos partidos em questão.

Aliás, quando estudamos sobre as causas para a origem da filosofia, verificamos que a permanência deste tipo de discurso decisional e dialogado,  oriundo de práticas guerreiras, constitui uma das principais causas para o nascimento da própria filosofia. Segundo Jean-Pierre Vernant, o que caracteriza a pólis, espaço no qual nasce a filosofia, é justamente a “extraordinária proeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos de poder”  (As Origens do Pensamento Grego. Rio de Janeiro: Bertrand, 200, p. 41). Ver também, a esse respeito, o texto “A palavra do Guerreiro e a Origem da Filosofia”, de Marilena Chauí, disponível na parte de textos didáticos.

As aulas na concha estimulam a particiação espontânea

Ora, se a própria filosofia nasce em um ambiente no qual tudo é levado à praça pública, εἰς τὸ μέσον, ao centro, local de debates apaixonados, oposições e consensos, não podemos desvincular o próprio ensino de filosofia desta prática que é o seu próprio fundamento.  Sendo assim, estimular e se esforçar para criar um ambiente no qual aconteça realmente este diálogo coletivo e não uma simples baderna é a principal tarefa do professor de filosofia. Não é uma tarefa fácil, sobretudo com jovens do ensino médio.  Mas talvez seja uma das únicas maneiras de possibilitar o que Manuel Garcia Morente, em seus Fundamentos de Filosofia, chama de vivência, experiência sem a qual a filosofia se reduz a meros textos sem vida.

Quem disse que Filosofia é chato?

Quando não se cria este ambiente, quando o ensino de filosofia se reduz a uma mera interpretação de textos antigos, retirando deles a própria inquietação e urgência da qual são fruto, a própria vivência da qual são portadores ou mensageiros, as aulas expositivas e a análise dos textos, atividades das quais o ensino de filosofia não pode de modo algum prescindir, se tornam ofícios chatos e massante

Na assembléia, todos são livres para se expressar, desde que peçam a palavra e aguardem a sua vez

As fotos acima ilustram as concorridas aulas de Filosofia ao ar livre no IFF, nas quais tentamos assimilar e interiorizar, por meio de grandes debates, os conceitos, técnicas e doutrinas filosóficas apresentados em classe. As fotos são do meu ex-aluno, fotógrafo e jornalista Welliton Barbosa.